Uma coisa qualquer
Amar.
Amar é qualquer coisa. Nem extraordinária, nem dolorosa, nem profética ou carnal. É apenas uma coisa qualquer. Mas como todas as coisas, é especial. Sente-se como nenhum humano há de explicar igual, mas, contado, parece ser sempre da mesma forma. Os livros dizem isso, e eu leio livros, mas não creio neles.
Amar somos nós. Não amor, nós não podemos ser amor. Somos Amar, porque isso faz-se, mais para a esquerda ou mais para a direita, com mais ou menos marcas de guerra, mas faz-se. E faz-se do que somos. Mas o que somos nós? Temo que já sejamos todos a mesma qualquer coisa. É verdade que de um modo ou de outro, somos todos Amar, mas não há no mundo duas almas escritas com a mesma tinta de carne, e mesmo quando se parecem, não se acercam. Somos ao contrário uns dos outros convictamente pelas mãos Dele, porque só assim se pode Amar. Mesmo que Amar seja uma coisa qualquer.
Cá para nós, bichos domados pela certeza, saberemos bem e factual, e comprovada e efetiva e analiticamente que Amar é, diz-se, aquela coisa de nos entregarmos ao outro. E onde começamos e depois nos findamos nesse jogo de entregas? Seremos nós só mais uma coisa qualquer? Pelo menos todas as coisas são especiais.
Somo-nos apenas porque o motor do sangue anda a uma rotação matemática e fisicamente suficiente para nos sermos, e isso, por vezes, basta para Amar.
Ah, e isso do Amar é daquelas poucas coisas que, mesmo que se tente ensinar, se nunca aprende, mesmo que se lhe bata, ou se lhe doutrine, ou grite. Não se ensina!
Aprendemos a Amar com a larga quilometragem dos nosso lábios, que vão daqui de nós até onde se hão de perder; com os litros de chuva dos olhos que se nos escorre enquanto estamos a Amar; com as folhas finas e lapidares da nossa carne, que se quebram com o dedos do dono dos relógios ao seu mais fino e delicado toque; com o devaneio da nossa franca e muito pouco honesta alma singular.
Não somos todos iguais. Mas, no fundo, somos todos a mesma coisa.
Escrito a 22 de março de 2026 por Francisco Ambrósio.


