Mesa d'infância
A mesa do meu tempo de pequeno era maior que o seu tamanho. Era de madeira, e de pano, e de sonhos e de conversas. Era tanto castanha, como verde, vermelha ou azul.
Foi nesta minha e não tão minha mesa que aprendi a sonhar ser gente. Imaginava-me para lá do mundo, umas vezes de bola nos pés se a conversa para aí puxasse (eu que nem jeito tenho com a bola); outras como inspetor da polícia se se estivesse a falar da vizinha que havia traído o marido. Era eu, apesar do sonho. Sonhava tão alto que, por vezes, enquanto piloto de aviões, olhava para baixo e tinha medo da turbulência entre as nuvens que me aguardavam. Fui eu.
O tempo que passava de roda de mim a ouvir o noticiário da família, era suficiente para ser cada um deles. Primeiro fui mãe, depois pai e depois avó, avô e até cão e só depois fui eu, só depois de ter sido cada um deles. Hoje sou eu.
Não há boa história, com ou sem H, que não salve o mundo, mesmo que ele esteja eminentemente sem salvação.
A minha mesa d’infância era como todas as outras: tão cheia quanto a tua ou a dele; tão vazia quanto nos momentos que passou a estar. Foi sempre um sonho porque, no fundo, era só uma mesa de jantar.
Escrito a 5 de abril de 2026 por Francisco Ambrósio.



ADOREI!! Até a mim me deixou a pensar na minha "mesa d`infância! ;)
Fantástico 💝💝💝