A cidade que não ouve
Lisboa. 7h12 da manhã. Ruídos eternos e conversas caladas. Diga-se, a capital do país.
O metro chiou outra vez entre o Marquês e o Rato, pelas 7h12.
O rapaz ao lado gritava com os fones. A senhora da frente falava para si.
A cidade inteira parecia ligada – menos as suas gentes.
Lisboa é isto. A catarse das almas escondidas, noites dentro. Dias dentro. Mas Lisboa é cada vez menos isto.
Escuta-se a música e ouve-se a conversa de relance. Vê-se o vídeo e passa-nos ao lado o velho sozinho. Isto é Lisboa, agora. Mas Lisboa não é isto.
Cada vez mais os dias no Bairro Alto são cheios de barulho e vazios de substância. A conversa, o “Adeus Maria”… e cada vez menos o bom dia.
Lisboa só é isto, do Bairro Alto a Telheiras, porque nós nos tornámos nisto.
Passámos a fugir daquele que nos quer contar histórias, para escrever numa qualquer rede sobre essa pessoa - que não ouvimos.
Ao motorista do 751 escapa-lhe o olhar do espelho; à empregada da Brasileira, a resposta ao “tudo bem?”. Não somos isto. Importámos esta forma de ser – ou de estar.
Lisboa já foi saber o nome do vizinho – quando havia gente viva na baixa. Já foi conversar debaixo da laranjeira à porta do prédio, em Alfama.
Não ignoremos, então, o que já fomos. Não deixemos para debaixo do chão – no metro – as boas gentes que ainda conversam… mas só para si.
Tiremo-las à superfície, às ruas, e ponhamo-las a falar entre si. Para os mais esquecidos, o apagão não foi assim há tanto tempo como nos fazem crer as redes.
Houvesse um apagão, então, desta forma de ser – ou de estar – nas nossas vidas, de modo a deixar fluir o que Lisboa é – mas hoje não.
A verdade é que ainda há quem resista. Ainda há a Maria, a quem não disseram adeus no Bairro Alto, que se senta num banco na Graça e diz adeus a quem passa.
Ainda há o “ti” Carlos, da porta 204 da Rua dos Fanqueiros, que diz olá a portugueses e estrangeiros.
Esse tal do apagão deu-nos uma certeza: precisamos de mais humanos na Humanidade. As cidades tornaram-se cruas e cruéis no dia em que deixámos de ouvir o senhor do balcão, para ouvirmos um qualquer podcast sobre produtividade.
Estejamos atentos uns aos outros. Só fala sozinho no metro quem não tem vivalma para palavra trocar.
A cidade que esqueceu os velhos e as suas memórias, não os esqueceu. A cidade que é hoje rude, não o é. Somos a substância que a habita – mesmo que de leve. No fundo, somos nós que fazemos a cidade. As cidades.
Talvez não precisemos de tanto silêncio.
Precisamos é de escutar com intenção. E de falar com vontade.
Lisboa não deixou de ser ela.
Fomos nós que deixámos de ser quem a fazia assim.
Escrito a 13 de julho de 2025 por Francisco Ambrósio.


